Blog Amor de Publicitária - Meu black não é moda, é minha raiz!

Passei minha a infância com os cabelos bem curtinhos, com o corte Joãozinho, não usava laços ou fitas, durante a adolescência estava sempre com ele preso como se quisesse esconder que aquele cabelo era meu. Logo que me tornei adulta passei vários anos com ele cheio de alisantes.

Hoje meu cabelo é cheio de cachos, é lindo e me sinto ótima assim!

Mas, nem sempre tudo foram flores. Na minha época de criança e adolescente negra do cabelo crespo, era muito comum o bullying, e até hoje é, não é diferente para as negras e crespas.

Passei pelo doloroso processo de referências negativas sobre a minha aparência, as “brincadeiras” de mau gosto por diversas vezes eram dolorosas. Começava aí a saga da rejeição do próprio cabelo, me questionava todos os dias e nem Deus escapava da minha insatisfação, só queria entender “por que o meu cabelo não era bom” como o das outras meninas, de acordo com elas mesmas.       Tentativas sem sucesso de encontrar respostas e soluções, tentativas infundadas, mas cheias de dor e insatisfação.

Cresci, me tornei uma adulta ainda impactada com os reflexos do padrão ideal de cabelo e cheia de inseguranças, poderia usar muitos alisantes, fazer escova, passar a chapinha que nada me fazia sentir satisfeita. E quem já passou por esse processo sabe que vamos do céu ao inferno em menos de 30 dias, quando os efeitos de destruição começam a aparecer nos fios e a raiz já não está mais incrivelmente perfeita como no dia em que fizemos o relaxamento. Afinal, o cabelo cresce pela raíz, né filha.

ADULTA E EMPODERADA, SERÁ?

Mas Deus é bom e me deu juízo, logo que meu cabelo cansou de tanta tortura, ainda contrariada, mas sem saber o que fazer, resolvi deixa-lo respirar. Foi quando parei com as químicas e comecei a usar o cabelo preso. E o mais impactante foi quando finalmente descobri como o meu cabelo era natural, por que sinceramente eu já não me lembrava. E foi amor a primeira vista!!

Mas, não quero enganar ninguém aqui, a transição foi sim um processo muito difícil. É preciso ter muita disposição para passar por ela.

Em meio às dificuldades do processo de transição eu descobri referências maravilhosas, as divas dos cabelos crespos, as blogueiras empoderadas. Aprendi muito com elas, a aceitar, a cuidar, pentear (sim, existe jeito certo para isto).

E esse é um dos motivos pelo qual acredito na força da representatividade, mulheres como as atrizes Taís Araújo, a Sheron Menezzes, Cris Vianna, a blogueia Rayza Nicácio, a miss Brasil 2016 Raissa Santana, a rapper Karol Conka entre tantas outras são inspiração e ajudam a muitas meninas e mulheres negras a se aceitarem lindas como são.

Afinal, “A VERDADEIRA BELEZA É SOBRE ESTar CONFORTÁVEL, EM SUA PRÓPRIA PELE.” Ellen Degeneres

Eu fico muito orgulhosa das mulheres e meninas que ajudam outras pessoas a se aceitarem como são, ensinam sobre representatividade, diversidade, tratam da importância da inclusão, ensinando a cada uma que todas são lindas. Fico pensando, como queria ter tido essa mesma oportunidade, teria sido mais fácil e menos doloroso lidar com o bullying.

Diferente do meu tempo de criança e adolescentes (não sou velha, a internet é que é recente), hoje as mídias sociais facilitam muito o acesso a informações, encontrar pessoas que passam pela mesma situação e também encontrar referências ajuda a lidar com a pressão da sociedade pelo velho padrãozinho.

Quando vejo relatos como o da MC Soffia me sinto muito feliz em saber que muitas já conseguem encarar esse problema de uma maneira muito mais firme e não precisam mais passar pelo que eu passei.

A Soffia é uma menina empoderada de discurso afinado. Que desde muito nova já sofreu com a discriminação “Fiquei muito triste e, de tanto me zuarem, falei pra minha mãe que queria ser branca”. Mas, ela logo deixa claro que aprendeu muito com a música e hoje o seu posicionamento é bem diferente “Eu canto sobre a menina negra aceitar seu cabelo porque já passei por isso. Sei que ela é xingada na escola e vai alisar o cabelo. Eu já alisei, mas tem que aceitar natural, é bem mais bonito.” E Soffia completa “Quero ser uma dessas rainhas que ajudou os negros. Quero um show com todo mundo balançando o black comigo. Às vezes as crianças xingam as outras e a professora só diz pra pedir desculpas. Devia parar a aula e começar a explicar tudo, toda a história dos negros”.

O sonho de Soffia já é realidade, em junho o Colégio Do Salvador que fica em Aracaju-SE organizou um festival de cabelos crespos e cacheados contra o bullying e foi um sucesso.

As educadoras sabem que crianças de cabelo crespo ou cacheado sofrem desde cedo com várias brincadeiras de mau gosto e entendem que é preciso se movimentar para resolver este problema de autoestima e ensinar as crianças a respeitarem seus coleguinhas. O Festival Cabelos Lindos teve como lema “Meu cabelo não é moda, é identidade. Solte o cabelo e prenda o preconceito”. O festival foi emocionante para as crianças e os pais.

Segundo a coordenadora da Educação Infantil, Nair Almeida “A escola inteira participou do evento, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Falar sobre o assunto e debater junto aos alunos acaba trazendo mais conscientização e segurança, sobretudo para quem tem cabelos cacheados e crespos. Meninos e meninas que nos emocionaram trazendo suas histórias e dificuldades por causa do seu tipo de cabelo mostraram, hoje, a todos, a beleza do diferente!”

Durante o festival teve dicas de penteados, cuidados para os cabelos crespos e um desfile, de autoestima de crianças com todos os tipos de beleza.

E fiquem ligadas meninas, eventos independentes acontecem pelo Brasil, mulheres crespas e cacheadas se unem principalmente através das redes sociais em prol de um mesmo objetivo, uma roda de conversa e debates para evitar que mais meninas cresçam e sofram acreditando que não tem um cabelo bonito. Nesses eventos rolam várias dicas, troca de experiências, debates sobre bullying, traumas de infância, aceitação e identidade.

E não é só por aqui em terras brasileiras que o assunto empoderamento é discutido. Nos Estados Unidos existe um grande movimento afim de também empoderar meninas e mulheres de cabelos crespos e cacheados.

O festival Curl Girl Collective ocorre sempre no verão em Prospect Park no Brooklyn, Nova York, o evento tem como lema O MELHOR FESTIVAL DE BELEZA NATURAL. A trilha sonora é pura energia positiva e tem como objetivo reunir os melhores nomes em beleza natural que trazem novidades para alegria das crespas. É um ambiente onde é possível conhecer fornecedores de moda e beleza de todo o país. O festival ainda tem bloggers, esporte em grupos, concursos, dança e atividades para mostrar o melhor em beleza, cabelos e muito mais.

O fato é que, a muito tempo paramos de encarar como algo normal ou aceitável receber críticas que nos ridicularizem. É preciso conscientizar e discutir o assunto sim e não vamos parar de lutar por igualdade e dignidade até que nos respeitem como merecemos. E que fique claro que cada um deve escolher o que lhe deixa mais confortável, assim como a ditadura da chapinha é prejudicial, achar que todas devem soltar o crespo também é um erro. O mais importante é estarmos confortável com nossa aparência e devemos ser respeitadas por isso.

E aí, gostou do artigo? Então compartilha com aquela amiga que está precisando de um incentivo pra libertar o black power!

Segue alguns endereços de divas maravilhosas e eventos para seguir nas redes sociais: Instagram @curlygirlcollective @rayzanicacio @santana_raissa @sheronmenezzes @crisvianna @karolconka @taisdeverdade Facebook Curly Girl Collective

Miga, sabe de algum evento parecido na sua região? Conta pra gente aqui nos comentários. E quem sabe não nos encontramos por aí.

Beijos da Mih!

14 COMENTÁRIOS

  1. Primeiramente parabéns pelo post!! Acho o Black Power lindo !!! Fico encantada toda vez que vejo, uma verdadeira obra de arte feita pelas mãos de Deus💜

  2. Eu fico imensamente feliz em ver posts assim, pois eu já passei pela transição e por todo o processo de aceitação. É horrível pensar que eu já me senti na obrigação de alisar, prender, domar meu cabelo pela influência de terceiros. Na época que eu passei pela transição foi algo só meu mesmo… não tive influencia de ninguém… e nem muito apoio também… mas sei de como procurar referências e ver pessoas na mesma situação que você pode ajudar. Cada um deveria ficar do jeito que se sente bem <3

  3. Amei seu post e amo seu cabelo, aliás, amo qualquer cabelo cacheado!!! Não me vou alongar muito, apenas dizer que fico danada da vida por saber que as mentes continuam igual e que ainda “xingam” o que é diferente. Será que não percebem que se é diferente para elas, aos olhos de outros elas são as diferentes? Será que não percebem que na realidade somos todos diferentes sim, mas que por dentro somos todos iguais, ou pelo menos deveriamos ser….

    BeijinhoBom
    Paula Cardoso
    Magia nas Palavras ♥

  4. Hoje em dia todas as mulheres ta aceitando mesmo os cachos, que isso d ótimo n. Pq naquele tempo atrás era difícil de ver alguém com cachos, mas hj em dia ta cheia de cacheadas

  5. Que triste e emocionante a sua história, O bom é saber que você se superou né? Amei a Sofhia, ela parece ser muito mais inteligente que muitos adultos com mente fechada por ai, haha? Beijos

  6. Eu vivo falando sobre isso e parece que as pessoas tem medo da palavra Crespo. Ultimamente parece que falar sou cacheada mesmo sendo crespa diminui o peso de assumir seu cabelo, mas eu digo e repito SOU A CRESPA MAIS FELIZ DO MUNDO.

  7. Tenho cacho tipo 3b, e nossa, toda a minha vida odiei o meu cabelo, o volume dele, o formato, sempre me senti feia por nao ter o cabelo lindo imposto pela sociedade, o liso, mas de um tempo pra ca me dei conta que o meu 3d e o meu volumao é um pisao nao sociedade hahahah, os cachos e o afro e lindo

  8. “Tá na moda ter cabelo crespo”, AVISA ISSO PRAS CRIANÇAS QUE SOFREM BULLYING POR CAUSA DO CABELO! Menina, eu simplesmente AMEI o seu post, só disse verdades e verdades que DOEM pra quem não entende o que é ser uma crespa assumida e enfrentar uma sociedade que insiste em dizer que cabelo bom é cabelo liso! AFF

  9. Adorei o post, apesar de não ter cabelo cacheado acho sim que temos que acabar com essa ditadura do cabelo bom é só o liso.
    Tenho cabelo liso e queria ter uns cachinhos, fazia com babyliss e essas coisas mais depois de 1h 2h sempre some. Se você quiser fazer uma parceria para falar sobre essas ditaduras de belaza,to dentro.

  10. A transição é difícil em qualquer idade e nos tempos de hoje, nos que passamos por isso, precisamos incentivar as meninas mais novas sempre a se aceitarem e gostarem do jeito que são! Tá de parabéns pela matéria!

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