Blog Amor de Publicitária - O universo paralelo da publicidade embranquecida

Brasil, país onde a maior parte da população é branca, as mulheres estão sempre a servir e  as famílias tradicionais são felizes para sempre…

Calma, eu não estou ficando louca, é assim que o país é retratado pela publicidade nos comerciais. Desconsiderando a realdade do povo brasileiro de maioria negros e pardos, onde as mulheres tem o poder de decisão em mais de 80% das compras e o formatos das famílias está em constante mudança, é crescente o número de casas lideradas por mães e avós, cresce o número de pessoas morando sozinhas e casais tem cada vez menos filhos.

Enfim, certo dia, durante uma apresentação de um seminário vi um grupo questionando a falta de diversidade na publicidade brasileira. Eles foram confrontados com afirmações de que não seria possível ter todos as pessoas em comerciais, ou seja, não dá para agradar a todos. Bem, interferi (se não fizesse isso, não seria eu) e questionei sobre a falta de negros nos comerciais, afinal, somos 54% da população e mesmo assim não me vejo representada em campanhas publicitárias.

A falta de representatividade está diretamente ligada a falta de funcionários negros nas agências de publicidade, que desconsidera o potencial do público afrodescendente que movimenta certa R$ 800 bilhões anualmente.

Aliás, um estudo feito pelo Instituto Patrícia Galvão, mostra que 65% das brasileiras não se sentem representadas pela publicidade. E sabe qual foi a resposta desse debate? “Se todos quiserem ser representados: o esquisito, o torto, o estranho e tantos outros, como seria? Não dá para colocar todos em um comercial…

Confesso que engoli seco, essa era a última resposta que eu esperava ouvir na faculdade. Existe uma negação da realidade nas campanhas publicitárias, que são machistas, sexistas e preconceituosas. E me parece e isso continua a ser perpetuado.

Ah, Michelle, que choradeira, não é bem assim. Sim, caros amigos. É exatamente assim, vou mostrar que é, vem comigo…

Certa marca de cosméticos lançou uma linha inteira de maquiagem para pela negra, fizeram um catalogo com os produtos e mesclaram com outros. E sabe quantas modelos negras havia no catálogo? Nenhuma! Isso mesmo, havia uma linha inteira de maquiagem para pele negra, mas as modelos eram todas brancas. Oi? Cuma?

As negras mestruam, sim, elas mestruam, mas nunca as vi em comerciais de absorvente. E assim segue uma enorme lista, negros não comem cereais, não escovam os dentes com pasta. Raramente um cabelo crespo como o meu é retratado em campanhas de shampoo, sim, eu lavo meu cabelo. No ramo automotivo internacional várias celebridades negras são garotos-propaganda de carros, entre eles Tyrese Gibson da saga velozes e furiosos e Lewis Hamilton tricampeão da fórmula 1, garotos-propaganda da mercedes bens. O cantor Will.i.am já foi nomeado embaixador da Lexus, a marca de luxo da toyota.

Existem vários outros exemplos no exterior, mas e no Brasil? Rara exceção, é o ator e humorista Marcelo Marrom que foi garoto-propaganda e fez uma série para a nissan, a marca já teve também o velocista Usain Bolt como embaixador global. Agora a pérola da vez é a rapper Karol Conka, diva maravilhos, mas que não compensa sozinha a falta de representatividade.

Acredito que o comercial mais descarado ainda é o de margarida. Mas, já existe a Margarina Black para provar que preto também come pão com margarina. A campanha é divertidíssima e foi lançada no canal do youtube “tá bom pra você?”, o canal foi pensado e desenvolvido pela atriz e produtora Kênia Maria com a participação do ator Érico Brás. O intuito deles é debater o racismo.

Esse universo paralelo da publicidade embranquecida também foi analisado no terceiro estudo TODXS – Uma análise da representatividade na publicidade brasileira, desenvolvido pela Heads Propaganda. A agencia analisou 889 postagens patrocinadas no facebook por 127 marcas anunciantes. A pesquisa se estendeu para a TV: foram examinados 3 mil inserções de 30 segundos, de 50 segmentos do mercado num total de 207 marcas.

Para uma reflexão mais profunda, devemos levar em consideração dados do IBGE 2010, onde 54% das pessoas deste país se declaram como negra ou parda. Mas, 83% dos homens protagonistas de peças publicitarias são brancos.  Em relação as mulheres, este número é maior e chega a 84%. E o pior e mais grave: a presença de casais negros no período analisado foi nula. Um completo disparate, essa publicidade não mostra a cara do Brasil.

Carla Alzamora é a diretora de planejamento da Heads Propaganda e porta-voz à frente do projeto, ela afirma “A diversidade racial aumentou discretamente em relação às edições anteriores, mas os números provam que ainda há uma grande distorção da realidade brasileira. E não podemos continuar pensando que ‘é só publicidade’”.

E completa: “Porque ela é onipresente nos nossos dias, reforça estereótipos, projeta padrões inalcançáveis e reflete comportamentos ofensivos. Também não estamos dizendo que a publicidade é o único grande problema, mas é parte dele. E, por ser assim, tem responsabilidade de se tornar parte da solução”.

Quando essa realidade vai mudar? Não Sei, é quase improvável afirmar. Acredito que o instrumento de mudança esteja na luta pela desconstrução de estereótipos.

Algumas marcas têm feito movimentos na contramão da corrente estereotipada e creio que isso chame a atenção dos consumidores, mas é preciso ser muito mais que comercial e para que ações como essa tenham uma potencial influência e transformação, é preciso ser também uma preocupação social, afinal se a igualdade e respeito as diferentes raças e gêneros não estiver ligada a cultura da empresa, o discurso nas campanhas perde a credibilidade.

Acredito que um dos fatores para a falta de representatividade nos anúncios publicitários ocorre pela falta de profissionais negros nas agências de publicidade, como mencionado acima.

De acordo com a pesquisa desenvolvida pela publicitária Danila Dourado, nas 50 maiores agências de publicidade do Brasil, dos 404 executivos da alta direção apenas 3 são negros, ou seja, 0,74%. As diferenças no mercado de trabalho persistem principalmente em cargos de liderança e alto escalão.

Precisamos criar meios para mudar essa realidade, já existem movimentos que caminham na direção da inclusão, mas isso acontece a passos lentos. De qualquer forma o que não podemos é desistir de lutar pela igualdade para todos.

E você, o que acha que podemos fazer para mudar essa realidade? Me conte aqui, divida sua experiência conosco. 

Beijos da Mih.

11 COMENTÁRIOS

  1. Oi.
    Nossa, gostei seu post.. estou muito feliz porque eu tenho uma família é negra.. São minha cunhada e 2 sobrinhos são lindo.. eu estou apaixonada por eles.
    É verdade que precisa melhor que sem preconceito, sabia o público também fala sobre de deficiente auditiva ou surda.
    Imagina que sou assim..

  2. Infelizmente os dados apresentados são só um reflexo do racismo velado muito presente na sociedade brasileira. :/
    Gostei muito do texto e anseio para que essa realidade mude.

    Beijos,
    Pietra – eutemostro.com

  3. Amei o seu post. Nunca tinha parado para pensar nisso, e agora estou bem que revoltada que não existe propagandas com pessoas negras e pardas, e como você falou eles fazem parte da maioria da população brasileira. Mas infelizmente acho que isso é em todo o mundo, espero que no futuro não seja assim.

    Beijos,
    Letícia do Garota Perdida nos Livros

  4. Como não conheci teu blog antes ? OMG. Que post FODA , falou muitas verdades infelizmente nos dias de hoje ainda sofremos com a desigualdade né ? Mais tenho fé que um dia todos viveremos em paz uns com os outros .

  5. Concordo com tudo o que disseste!
    No entanto, acho que isto é um problema a nível mundial, não só acontece no Beasil como no mundo inteiro. Até mesmo na América, onde existe milhares e milhares de afro americanos. É raro vermos, hoje em dia, uma rapariga negra num videoclip… tanto americano, como, por exemplo, angolano. Toda a gente virou a cara para o branco e existe uma tendência que está a intensificar ao longo do tempo: esquecer a sua própria cultura.
    Tanto nos anúncios publicitários, é raro vermos raparigas negras! Falo no mundo feminino como masculino.
    É tudo a mesma coisa. Eu vejo com certas youtubers! Há uoutubers que tem um sucesso dado só pela sua cor de pele… convites para eventos são dados de mãos abertas para pessoas mais claras do que para pessoas mais escuras. É uma realidade triste que pode ser combatida apenas com persistência.

    Xoxo,
    Ciela Unlimited | cielaunlimitedblog.wordpress.com

  6. Que post top!!! Realmente o preconceito no Brasil está cada fez pior, uma vergonha morar em um país como esse onde é raridade ver uma publicidade com pessoas negras, não só publicidades como varios outros fatores que eles “excluem” os negros ! Vergonhoso

  7. Infelizmente a igualdade do brasileiro só existe no papel, tanto para raça quanto para gênero,as mulheres vem sofrendo muito preconceito em relação a cargos mais altos e em certas carreiras… Torço para que um dia essa realidade fique na história como um passado onde a desigualdade reinava… Parabéns pelo post!!

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