Blog Amor de publicitaria - O dia em que a periferia abalou as estruturas da SPFW - Emicida e Fióti - Avuá

Cês esperava que eu roubasse tudo, menos a cena

Vou começar falando do Leandro Roque de Oliveira também conhecido como Emicida. Ele é rapper, produtor musical e empresário. Além de dar uma aula de negócios ele também é um dos grandes nomes do hip hop nacional revelado nos últimos anos. O nome artístico do rapper teve origem nas batalhas de rimas onde ele detonava os concorrentes.

O cara é uma verdadeira revolução, exemplo de luta, de quem enfrentou batalhas árduas e mereceu a vitória. Um caso de sucesso que merece ser contado em detalhes, o rapper é para muitos jovens uma grande fonte de inspiração. Afinal, o menino preto, pobre e favelado tinha tudo para dar errado. Mas, ser tornou um negro vencedor e foi ovacionado em um grande evento nacional está semana, a SPFW.

Mas, me deixa contextualizar para vocês entenderem melhor…

O Hip Hop nasceu no Brasil no mesmo contexto que nasceu nos Estados Unidos como um movimento somente das periferias, era considerado um som de preto, favelado e por muito tempo foi marginalizado. Atualmente o movimento alcança todas as classes sociais no país.

Seguindo os passos do que já acontece nos Estados Unidos, Emicida expande o movimento para muito além da música, ele decidiu entrar para o mercado da moda.

Foi assim que em 2009 nasceu Laboratório Fantasma. Emicida e seu irmão Fióti começaram a produzir eles mesmos camisetas artesanais, a ideia era retratar a arte urbana, fizeram tudo sozinhos e com o dinheiro que ganhavam com a música, o que não era muito porque o mercado do hip hop era bem restrito, tinham poucos contratantes e casas de shows. Eles não tinham nenhuma referência nacional, pode-se dizer que a Lab Fantasma é “um caso de sucesso de economia criativa na musica”.

“Quando a gente surgiu, nesse período de 2009, não tinha nenhuma empresa que fizesse o que a gente faz no meio do hip hop, ou do funk, ou da música de periferia, naquele momento. Não tivemos um espelho nacional”, lembrou Evandro Fióti em uma de suas entrevistas.

Atualmente a Lab é um sucesso e no dia 29 de agosto de 2017 fez seu terceiro desfile na 44ª edição do SPFW com a coleção Avuá, eles foram ovacionados pelo público e pela crítica, se tornaram o burburinho da vez, muito além do esperado por eles mesmos. E de acordo com Paulo Borges, fundador e diretor criativo da SPFW, isso aconteceu porque “A Lab traz para a passarela a vivência real das pessoas que fazem a marca. Isso é muito forte. A Lab representa um novo movimento no mercado. Já aconteceu com Osklen, Cavalera”, disse em entrevista para o fuxico.

A Lab nos primeiros desfiles procurou trazer referencias do passado, a herança negra da cultura africana, mas nesta terceira edição eles decidiram focar no futuro e na liberdade. E deu super certo.

A coleção Avuá é inspirada pelo voo dos pássaros e sua liberdade. Isto se solidifica ainda mais pela fuga dos estereótipos do casting que está completamente fora do padrão imposto por muito tempo pelo mercado da moda. Os modelos eram negros, brancos, homens, mulheres, altos, baixos, gordos e magros.

 

 

 

 

 

 

Imagens: fotosite

A coleção traz look’s de cores claras e tem peças como jaquetas, bermudas e moletons bem ao estilo de rua. Fióti explica mais sobre a coleção

“Através das metáforas de voo, escrita e canto, os três pilares da coleção, nós fizemos peças modernas que trazem ao nosso público uma sensação de liberdade”.

Durante o desfile eles mesmos fizeram o som ao vivo com single inédito lançado no desfile da LAB na SPFW da coleção “Avuá”.

Um trecho da letra:

Matei mais dragões que Alice
Punho cerrado
Eu disse, tamo em formação
Erguendo império, superação

Lindas flores do gueto, sou flor do gueto
Estrela do meu show
Triunfo pra noiz, viva o povo preto
A rua é noiz, então segue o flow

Papo de progresso,
levante, grito
Avuaaaa
nossa voz ecoa
Taco fogo nas faixa
Faixa preta
Sou preta, sou gueto, sou rap, força
Disseram que eu não deveria sonhar
Sonhei alto que nem Maya Angelou
Sou pássaro livre e tô pra cantar, mulher do fim do mundo
Eu sigo e vou”.

Os irmãos rappers trouxeram para o desfile nomes como Kamau, Rael, MC Carol, Drik Barbosa e Coruja. Show a parte a coleção chega à loja online da Lab em setembro e tem numeração especial plus size.

Emicida e seu irmão Fióti denunciam racismo na SPFW.

Infelizmente mesmo com o prestigio e respeito que conquistaram Emicida e seu irmão Fióti denunciam racismo na SPFW. Para o racista não importa se temos tudo isso, não importa se temos muito dinheiro, ainda somos negros.

O caso aconteceu logo após o desfile da marca, Fióti que é rapper e dono da Lab junto com Emicida, foi barrado por segurança do evento mesmo usando a pulseira que lhe dá direito a livre circulação. Ele relatou o abuso em sua conta no facebook: “Ser preto é ser barrado pelo segurança do evento até mesmo quando é da sua marca e com pulseira”.

Reprodução facebook Fióti

Eu considero o Fióti muito generoso, consciente de como o racismo acontece no Brasil e de como estes abusos devem ser tratados. Confesso que me surpreendeu, de sangue quente é muito difícil ser racional…vamos aprendendo.

Ele pediu que o segurança não fosse demitido, o Fióti argumentou que o problema do racismo é estrutural e precisa muito mais que uma demissão para resolvê-lo – já que não houve uma agressão física – é preciso que se eduque e conscientize as pessoas a tratar uns aos outros com mais humanidade e respeito.

E completa, os negros precisam lutar por representatividade e conquistar espaços como protagonistas. Os rappers são enfáticos ao afirmar que às vezes nos colocamos em lugares onde temos o direito de estar e mesmo assim nos sentimos deslocados e a parte daquele contexto. Por esse motivo eles trabalham tanto com a autoestima em suas coleções colocando a diversidade na passarela.

Me tornei fã desses caras primeiro pelo discurso e posicionamento, somente depois conheci suas músicas. Tenho certeza que vale a pena você também conhecer e ouvir o som dos irmãos Emicida e Fióti.

Fióti não quis dar entrevistas para os meios de comunicação que o procuraram, afim de evitar que o acontecimento fosse deturpado, ele e o Paulo Borges fundador e diretor criativo da SPFW emitiram notas de esclarecimento sobre o caso e gravaram um vídeo juntos que foi publicado na página oficial do evento SPFW. Segue abaixo:

Nota da LAB:

“Desde que a LAB fez sua estreia na SPFW, principal evento de moda da América Latina, há três temporadas, vem reforçando a importância da representatividade e levando a rua para as passarelas, diversificando o casting de forma muito natural.

Na última terça-feira (29), a LAB apresentou mais uma coleção em seu desfile e, no momento em que Fióti, um dos fundadores da marca, foi deixar a Bienal para se juntar à sua equipe, foi barrado por um dos seguranças mesmo mostrando sua pulseira de livre acesso e argumentando que era sócio de uma das marcas que havia desfilado.

O músico só conseguiu a liberação após o segurança contatar seus superiores. O ocorrido ressalta a realidade do racismo ainda existente na sociedade brasileira e reforça ainda mais a necessidade da participação de marcas como a LAB em eventos de grande repercussão e da inclusão de pessoas que realmente representam a população brasileira em lugares de destaque.

Em nota oficial, a SPFW também lamenta o ocorrido e, de acordo com a organização do evento, as medidas de repreensão de conduta já foram tomadas junto à empresa responsável pela segurança do evento.”

 Nota da SPFW:

“Ao ver o post de Evandro Fióti, na noite de terça-feira, Paulo Borges imediatamente entrou em contato com ele para apurar o ocorrido. Em seguida, tomou medidas junto à empresa de segurança contratada pelo evento, para repreensão de conduta dos envolvidos, e atendendo pedido de Fióti, preservou o funcionário responsável.

O SPFW está integralmente ao lado de Fióti, e acredita que a divulgação deste fato contribui na luta contra atitudes que infelizmente ainda fazem parte do dia a dia de nossa sociedade e que nos repugnam.

São mais de dez mil pessoas trabalhando direta e indiretamente no evento, que sempre defendeu e trabalha pela diversidade em todos os níveis.”

Confira o esclarecedor bate papo entre Paulo Borges e Fióti. #SPFW

Posted by São Paulo Fashion Week on Thursday, August 31, 2017

Acredito profundamente que esse tipo de acontecimento, como o que foi vivido pelo rapper no desfile da sua própria marca deveria ser amplamente discutido por todos. Vi muitas pessoas fazendo críticas negativas, afirmando não terem visto nada demais. O que precisa ficar claro e o que a pessoas precisam ter consciencia é que em muitos casos de racismo nem sempre vai ter alguém apontando o dedo na sua cara. Porque o racista é covarde, ele sabe que isso pode ter consequências muito mais graves para ele.

Geralmente a forma covarde que encontram para manifestar o preconceito é nas entrelinhas, quando o negro é barrado mesmo quando está com a pulseira de acesso livro ao evento, quando o seguem dentro de uma loja ou supermercado, quando o desqualificam em uma entrevista de emprego, mesmo que ele seja muito bem qualificado.

Não podemos mais nos calar e abaixar a cabeça, é lamentável e desprezível que o racismo e a intolerância ainda façam parte da sociedade em pleno século XXI.

Dignidade e respeito a todos!

Beijos da Mih.

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